terça-feira, 18 de novembro de 2008

CRÔNICAS

Rio 13 de outubro de 2006


Sim ou não

A sociedade moderna tem que ensinar seus filhos duas coisas:
Que a palavra não significa não.
A necessidade de respeitar as outras pessoas.

Quando os papais e mamães entenderem isso, 80% dos problemas estarão resolvidos.
Todo ensinamento familiar é baseado no não.
É claro existe o não negativo de existência de algo e o não que expressa uma opinião ou uma opção, mas estamos tratando inicialmente do não de permissão.
Não faça bagunça, não espalhe os brinquedos, não ligue a televisão, não responda a professora, não vá brincar agora, não etc. Em fim, para cada não infanto-juvenil existe uma série de argumentos, contestações, onde algumas vezes o não, vira o sim. Aí, literalmente começa a confusão.

Tudo de ensinamento é baseado no não.
Nunca ouvi perguntas com sim óbvio:
Posso estudar?
Posso parar de brincar para tomar banho?
Posso arrumar o quarto?
Posso ficar quieto?

A criança só aprende com o não. O certo é que o não está sempre certo, para todas as perguntas que são feitas.
Me arrisco a falar que o sim é uma concessão de direitos ou um reconhecimento lógico de direitos. O sim é uma questão de direito, ou a opção é do permissor e ele permite o uso, ou já é de quem pergunta e o permissor apenas reconhece que ele pode utilizar.
Papais, mamães e filhinhos desaprenderam ou nunca entenderam bem essas diferenças.
Ainda estamos em casa.
Posso comer um pedaço de bolo, ou mais um pedaço de bolo, normalmente é sim, mais se a criança for obesa ou diabética é não, por protecionismo é não, e fim.
Meu filho não suba na janela, é para evitar um acidente, não é não, nesse caso a porrada come.
Meu filho sai da frente desse vídeo game, você deixa de fazer suas obrigações para ficar aí. Não pode deixar os deveres do colégio para depois.
Não use minhas chaves, não use minha caneta, são predecessores de: não use minha senha de banco, não use meu carro e não use meu etcetera.
Não me responda, não fale alto, não grite, não minta, não beba e não fume cigarros são predecessores de: não desrespeite a professora, não abuse de seus direitos, não mate aula e não fume maconha.

Não é não, e ponto. Os argumentos em torno contestam as posições não definidas. Se o não é contestado ou o permissor está errado ou ele não tem o direito de “permitir que”.
Outra afirmação arriscada, uma criança tem que receber muitos “nãos” durante o seu aprendizado, um adulto bem encaixado dentro da sociedade o mínimo possível de “nãos”.
É claro que existem motivos profissionais de negativa, mesmo assim, um vendedor ou profissional que recebe vários positivos durante o dia, está bem encaixado dentro do que se propõe.
Um adulto busca o seu direito no local certo e na hora certa. Ele busca o sim.
Quantos “nãos” você recebeu ontem?
A maioria poderia ter sido evitada?
Pense bem:
Você é o provedor de sua vida, todas as coisas relacionadas a sua vida dizem respeito a você, portanto, no final a culpa é sua. Se você anda recebendo muito não e “passa fora”, algo está errado na sua vida, você é desorganizado ou inconformado.
Nesse ponto, existe o contrário, responder muitos “nãos” a adultos, indica também que algo está errado no mundo que te cerca. O seu balcão de vendas está perdendo em imagem.
Toda vez que você recebe um não, no seu intimo você diz “filho da puta” é isso que te faz escolher entre: lojas de serviços, supermercados, restaurantes, profissionais, amigos, cônjuges, etc.
Qualquer forma de relacionamento é troca, o maluco estava certo “gentileza gera gentileza”. Se você tem um negócio, risque do seu vocabulário e de seus empregados a palavra não, se por exemplo: você trabalha em auto peças, alguém pergunta sobre algo fora de seu estoque normal, ou você indica o local correto, ou indica um geral, meu amigo vá em S. Cristóvão, o problema do cliente, continua o mesmo, S. Cristóvão é um local como outro qualquer pode ser que dê certo. Simplesmente não, é um convite para não retornar a sua loja, nem para consulta.
É claro, você não é responsável pela sociedade, pelos colegas de trabalho, vizinhos e inconvenientes de rua, em algumas situações o não é inevitável. Mas pense, sempre algo está errado.
Em resumo, em se tratando de sua família e amigos mais chegados, o positivo é o sim, o sim tem que ganhar, e o não, tem que ser evitado de ambos os lados (passivo ou ativo). Não pergunte a sua mulher se: tem manteiga na geladeira, se ela sabe onde estão suas chaves, seus óculos, respostas tipo: não sei, não sei o porque, não é da minha conta, não devem ser provocadas, para escutar isso, não pergunte, fique calado e vá procurar a resposta, sozinho. No final do dia serão vários “nãos” a menos.
Mas o assunto é o não permissivo típico de crianças.
Quantas vezes você já falou para seu filho “não fale com estranhos”. Ah! Assim é mais fácil. Você escancarou a porta da falta de educação.
Ora! Todo jovem / criança é tímida. Toda pessoa que atravessa o caminho do seu filho é um estranho e para o tímido, ela deve ser ignorada.
Por outro lado, todo pobre é subserviente e se esconde para não cumprimentar também as outras pessoas, por ser sempre o prejudicado e não se mete no que não é da conta dele. Tem outro problema quando se junta os dois, seu filho quando fala, só despeja impropérios. Fudeu! Por sua culpa seu filho já encontra uma enorme barreira.
Você ensina a seu filho a não cumprimentar as pessoas, seu filho é testemunho, ele vê quando você fala com o porteiro, o faxineiro, o vizinho.
E o que você comenta quando você vira as costas? Isso mesmo, você não dá exemplo para seu filho. Lembra cumprimentar, bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, com licença e o mais importante desculpe.
Eu era babaca, meu pai entrava no ônibus dizia alto e claro, para todos ouvirem. Obrigado motorista e bom dia, ou tarde, para todos! E quando descia, Obrigado!
Teu filho está literalmente fodido. Por que um pobre vai comprar o barulho de seu filho? O pobre não compra nada, ele vive na favela, na lei do mais forte.
Conclusão: seus filhos têm problemas de relacionamento com o mundo.
Vamos extrapolar, se com você um não para o seu filho, é complicado e difícil de ser aceito, imagina com outra pessoa, para o tímido babaquinha o outro é um estranho, o problema é que ele foi ensinado a não falar com estranhos. Que dirá de aceitar um não.
Seu filho está interpretando “não falar com estranhos” do jeito dele, ele distorce o fato a favor da vontade dele. Uma pessoa pacífica e de boa índole vai relevar a falta de educação, dane-se seu filho. Literalmente, danem-se vocês dois.
Mas você quer protege-lo. Contra quem? Contra o Sr Pacífico?
Cedo ou tarde, seu filho e você, irão aprender que as pessoas são diferentes, o faxineiro do seu prédio não irá socorrer vocês apenas por que são moradores do prédio. O pipoqueiro, o guardador de carros, até o bebum da esquina, da mesma forma que você, também querem cuidar da vida deles. Você paga a alguém para ser segurança? É um problema sério.
Na esquina de minha casa tinha um mecânico, éramos todos vizinhos, a filha de um outro vizinho bate com o carro 50 metros adiante, o mecânico em sua simplicidade diz: Ela sempre passa aqui e nunca me cumprimentou, eu não conheço. Resumindo, foda-se.
Não é muito difícil de seu filho deparar-se com policiais e bandidos, pessoas em que a autoridade está no sangue, presume-se nos extremos, opostos, mas mesmo assim extremos, ele estará perdido, se ele questionar da mesma forma que questiona o não com você, na melhor das hipóteses ele toma um esporro e se responder uma porrada.
No mesmo nível estão as pessoas com pouca paciência para agüentar, um moleque mal educado que você soltou na rua. De novo, na melhor das hipóteses ele toma um esporro e se responder uma porrada.
Mas você quer protege-lo. Contra quem? Contra o Sr Pacífico? Contra o bandido ou contra o policial? Contra o fio desencapado?
Alguma coisa está errada. De quem você tem medo? Por favor esclareça!
Do Sr Pacífico? Do bandido? Do policial? Do fio desencapado? Do seqüestrador? Do golpista?
Esses dois últimos são novos. Não adianta, adultos não se livram de seqüestros e golpes, o que tem que ser, será. Até aqui será inevitável.
Deve ser então do aliciador?
Sua filha vai ser aliciada, fugir de casa e virar uma puta. PRESTA ATENÇÃO, estamos falando até 14 anos, de crianças educadas com o não, se sua filha vive em ambientes controlados, colégio e vizinhança, ela não está ao alcance de aliciadores. Aos 14 anos ninguém sai sem dizer para onde. Presumo que você saiba onde estão seus filhos. Portanto desse infeliz, os seus filhos estão livres.
Então, você tem medo do taradão que pode aparecer e enrabar seu filho, ou currar sua filha. Ah!! Por causa disso toda a sociedade vira uma vítima de vocês. Você tem algum trauma, alguém deve ter te enrabado quando você era criança.
Vamos esquecer de você.
Papai, o perigo do taradão existe, mas é raro. Onde? Na sua vizinhança? No colégio? Na igreja, tem muito padre tarado nos EUA? Você está navegando e interpretando também o fato da sua maneira, seu filho aprendeu isso com você.
O fato é: Seu filho é um saco, nem você agüenta, você até agradeceria que ele encontrasse logo um fio desencapado para fazer com ele tudo de uma vez, o que você deixou de fazer aos poucos, palmadinhas e etc.
Isso tudo é para compensar suas fraquezas, sua falta de tempo em conversar, a necessidade de você ter que entregar educação para outros, creches, perda de tempo vendo na TV a idiota da XUXA, cursinhos de bostas. Você colocou seu filho no Inglês? Porra!! Para que? Ele é tímido, ele não se expressa em Português!
Nada substitui, perde o seu tempo e organiza a pelada do seu filho e vai junto! No final, para ele se acostumar leva duas Coca colas família, deixa eles fazerem a festa. Fica junto, do lado. Dê exemplo. O problema é seu. Porra!!!! Se possível, me quebra um galho. Aproveita e fala que a quadra não é lugar para descarregar frustrações e gritar palavrões para o condomínio inteiro escutar.
Papai, o perigo para seu filho, está do lado dele, sentado no mesmo banco de escola, são outras crianças de papais iguais a você. Sei que errei muito, tenho uma nova oportunidade com uma criança, minha mulher disse, ela só vai para escola quando souber falar e contar tudo que acontece. Minha primeira mulher não falou isso. Não deu muito certo.
A professora, o inspetor, o vizinho, o pipoqueiro, o zelador, o porteiro, são pessoas que ele deve respeito. Agora faça com que ele entenda que um estranho merece da parte dele muito mais respeito e cordialidade, afinal, as conseqüências devido a um atrito com uma pessoa que ele não conhece, podem ser mais sérias.
Pense bem: Hierarquia, autoridade, comando, são coisas que não mudam. Aumenta o salário, comandado vira comandante, mas continua sendo comandado, são ordens e regras por toda a vida.
Você está criando seu filho para que?
Já sei! Seu filho dará um bom político, lógico é a cara dele, ele vive reivindicando, vive contra argumentando, fala alto, ganha as coisas no grito e na pirraça, é prepotente, só fala com os outros principalmente pobres quando lhe convém, não cumpre as obrigações ou não tem, ele mente e interpreta verdades como lhe convém e está sendo colocado no mundo para se virar. Garoto de futuro!!
Para o futuro próximo serão comuns: Mudanças rápidas de moradia, novos vizinhos, porteiros, faxineiros, novos locais de trabalho, novas equipes de trabalho. Resumindo, serão indispensáveis qualidades como: sociabilidade, flexibilidade, tolerância. Do jeito que as coisas estão indo, você tem certeza que seus filhos estão bem?
Sem pedido de desculpas, direto, defina melhor para sua família o que significa “não”, defina melhor o que significa “não falar com estranhos”, defina o que significa respeito.

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