terça-feira, 18 de novembro de 2008

Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2007



Não menospreze o sofrimento de seu filho.

Você, cidadão remediado, que sempre disse que a vida do seu filho é fácil, que a sua vida é que foi difícil, que você paga tudo, que não existem cobranças, que hoje existem todas as facilidades do mundo moderno. Você está sonhando, navegando na maionese, você é um ser insensato e imaturo.
Acorda! Antes que esse moleque que você diz que tanto ama se perca em tanta babaquice de sua parte.
Vamos começar é claro, pelo começo:
Você e sua mulher, se foram organizados compraram um pequeno apartamento, na certa compatível com o orçamento dos dois. Se não organizados casaram de barriga e foram direto para o imóvel alugado. Começaram totalmente desorganizados financeiramente, mas, depois conserta, a final, acontecia com todo mundo.
Para dar um bom nível para a família escolheram um bairro distante da sua família e da família de sua esposa. A bem da privacidade do casal afastaram os únicos apoios que tinham, sozinhos, sem organização financeira e familiar.
Como o número base de filhos são dois, por bom tempo ficaram os quatro dando cabeçadas e brigando por espaços cada vez mais raros.
Antes de um ano de idade seus pimpolhos foram jogados em uma creche e educados na base da indiferença, (deixa chorar para acostumar) porque eles tinha que rapidamente aprender a se adaptar aos novos tempos, em casa por preguiça vocês usavam a mesma tática do deixa chorar, eles já estavam condicionados pela creche e vocês nem notaram. Eles aprenderam rapidamente que não podiam sujar o ambiente, não podiam comer fora de hora e a respeitar os tratadores e os coleguinhas maiores. Por causa do mesmo condicionamento começaram também a se isolar de contatos familiares e vocês nem notaram.
Passada a fase de creche veio a pré-escola, dois filhos, resultado, nunca a situação melhorou, mas você e sua mulher pagavam todas as contas, prestações, alimentação, escola particular e até por sentimento de culpa natação, judô e escolinha de futebol. Resultado: Não sobrava nada.
Vamos agora por partes. Eu não sei sobre você, eu fui filho de classe média baixa. Quando minha mãe teve que voltar a trabalhar eu ficava com a minha avó, eu fui para o colégio com 5 anos contando tudo que faziam comigo, não fui, mas poderia ter ido para uma escola pública que seria a mesma coisa, aprendi a nadar nas praias da Ilha do Governador, onde ainda não havia poluição, pesquei muito, nunca fiz judô e moleque no meu tempo já nascia jogando bola, ninguém precisava de escolinha.
Principalmente por causa do preço, enquanto você conta quantas vezes seu filho foi ao cinema, eu ia toda semana na domingueira do padre, a molecada se armava de amendoins e essa era a nossa guerra, era o máximo de maldades que praticávamos. Sempre existia um poeirinha passando um cow-boy no fim de semana. Alias você deve pensar: Para que cinema? Se existe TV a cabo e CDs piratas.
O tempo foi passando, seu filho crescendo sem espaço, sem a avó, se acomodando a situações, a família sem dinheiro, apertada. Portanto: Com privações. Não se ofenda! Sofre privações quem é privado, da mesma forma que: marginal é quem vive à margem. Não importam as razões, são definições.
O caso é que o moleque cresceu com você no cangote dele porque ele não estudava e a escola cobrava de você uma atitude, senão o bichinho não passava de ano. Apesar do custo, a escola não fazia nada porque, isso é problema da família e tome porrada, castigo, chantagens, só ele para descrever o sofrimento. Existia e ainda existe um conceito para esconder a incapacidade da escola: Se o filho fosse reprovado era porque a família estava desestruturada e a criança estava insegura.
O bichinho começa a ter opinião e começa a contestar. Fudeu!
Hoje, eles são prematuros, começam com problemas aos 12 anos.
Vamos extrapolar, você é um herói e segurou a situação, muita porrada para estudar e com 16 anos e ele está quase terminando o segundo grau. Ufa! Parabéns!
Cresceram as necessidades, dinheiro, dinheiro, dinheiro, cinema, shopping, Mac Donalds, mas você explica para ele que: é ele quem não sabe administrar o capital. Ele não sabe se defender sobre o engodo entre dinheiro da passagem e o dinheiro do lanche de trajeto e sobre a passagem e o lanche para lazer (não são a mesma coisa?) você é quem sempre enrolou o meio de campo misturando tudo, no final a culpa é dele e ele está gastando sem controle. Ele deveria entender: Porra! Quer lanchar? Lancha em casa. Mac Donald é muito caro. No caso adulto o governo obriga as empresas a fornecerem vales transportes e refeição, no caso infanto-juvenil, é tudo incluído no lazer.
Então ele se convenceu que sair era um desgaste desnecessário e ele ficava esperando até meia noite para entrar na Internet. Ele trocava o dia pela noite por que era de graça. Você reclamava muito da conta do telefone, ele não tinha outra opção.
Você então teve uma idéia sensacional: contratou um pacote de Banda larga, TV a cabo e telefone com 200 minutos. Porra! Parabéns!
Depois você reclama com o Lula sobre o programa de informatização e da nova TV digital. A classe média é quem paga a conta. O fato é, de graça só depois da meia noite.
Sair para que? Você resolveu até o problema da sua mulher, pede para sua mãe ensinar a ela como se faz aquela piza de sardinha que a sua mãe fazia. Tudo perfeito e resolvido com a maior segurança e economia. Ninguém entendia, a piza caseira era uma merda porque a farinha vendida não era adequada.
Mas, é inevitável, 16 anos as periquitas e periquitos estão em agonia, não tem conversa ou internet que segurem. É preciso ter contato físico, não existem bailes para a garotada namorar, dançar.
Se um organizador se arriscar a investir em um baile é prejuízo, o consumo maior é coca-cola e êxtase, salgadinhos nem pensar. Garotos não têm dinheiro. Sem condições, nem para bailes de carnaval, pergunte a si mesmo por que a garotada não tem baile.
A falta de lazer é muita, a aglomeração em um pequeno evento é enorme, o estado se esconde incompetente em segurança gratuita e o evento não dá lucro para pagamento de segurança particular, no final porrada e inquérito para apurar responsabilidades. Governinho cara de pau, para o governo é melhor que não tenham eventos.
Qual é a parcela de culpa do governo e dos grupos de segurança?
Eles desaprenderam como manter a ordem em aglomerações de baixo custo para uma população carente de diversão.
Engraçado, na escola de samba e no baile do traficante não tem briga. Porque será?!
Há muito tempo a segurança eficiente é marginal. Uma milícia velada que não funciona quando existe uma entidade responsável para processar.
O lugar mais seguro para a garotada se encontrar é o posto de gasolina da esquina. O que? No posto? É uma Coca cola família é dividida para quatro, assim, está no orçamento.
Mas isso não dá barato.
Calma, na muvuca tem de tudo, pó de mármore, bosta de vaca e até um comprimidinho legal, tudo baratinho. O baratinho faz mal a saúde, fezes no pulmão é no mínimo porcaria e pó de mármore é silicose sem trabalho insalubre. Coisa de louco!
O que jovens fazem na rua até 2, 3 horas da manhã com os R$10,00 (dez real) que podem dispor para ele? De cara eu te respondo não deve ser boa coisa.
Não acabou ainda, a merda está só começando.
Vamos recapitular. Sem carinho de pai, mãe ou avó, sem espaço, sem domingueira com os amiguinhos, sem campo, praça ou praia para futebol e outras atividades, sem baile e sem canto escuro para tirar um sarro. Que merda de vida!
A muito tempo, jovens para jogar uma simples pelada têm que pagar por um campo particular, eu nunca passei por isso, existiam praças e terrenos baldios ocupados para o lazer, hoje prédios, super população e lixo. As quadras das escolas de comunidades são restritas aos moradores ou fechadas para classe média.
Até aqui então, seu filho está descontando os maus tratos das creches, tratando mal professores, porteiros e empregados inferiores, louco alucinado por TV e jogos eletrônicos, jogando bola no corredor do prédio, esperando todos saírem para o trabalho para fazer um bacanal em sua própria casa, alem disso já com grandes possibilidades de ser um doidão irrecuperável.
Tem mais!
Você é uma pessoa de sorte, ele termina o segundo grau e com quase 18 anos, o relacionamento familiar começa a mudar. Para pior! Dá no mesmo, R$10,00 ou R$50,00 por semana, ele olha para você dando aquela merreca e você reclamando dele e dizendo que nem aquilo ele merece, porque ele não ajuda em nada. Ele não sabe se fica para escutar ou vaza sem dinheiro mesmo. Ele não sai, ele vaza. Não me pergunte qual a ligação do vazar ou estarem todos vazios e vazando.
Vem aí o vestibular. Para que? Ele tem que escolher. O que? Escolhas bem sucedidas de alguns bens sucedidos. Quem paga? Tem que ser uma universidade do governo.
Ele pensa, se para pagarem um segundo grau, diploma que qualquer favelado disposto tem sem repetir de ano, ele escutou tudo aquilo. Imagine suportar toda essa tortura até 23 anos de idade, quando terminar. Se der sorte!
Mas ele já tem sorte, ele estudou naquele bom colégio que você pagou e vocês dois passaram ano após ano. Ele é igual a todos os outros, uns poços de cultura, nunca leram nada, nem os livros da escola, ele é um grande pesquisador de internet.
Ele não sabe interpretar, não sabe escrever, não faz conta de cabeça, decorou algumas coisas que não sabe aplicar tipo –b +ou - raiz de b dois - 4ac sobre 2 a. E daí! Ele precisa arrumar pelo menos 50 contos por semana sem escutar sermão.
Com apenas o segundo grau ele vai competir com uma pessoa favelada que nunca ganhou R$10,00 por semana ou nada de ninguém e portanto já acostumada ao trabalho braçal, mas ele leva uma vantagem, ele tem educação e presença.
O queeee?
Onde? Como? Deve ser do Paraguai. Ele comprou no camelô.
Educação e presença, você não conseguiu dar, ele nunca respeitou ninguém.
Que desespero, ele nunca gostou de estudar e não pode competir com o favelado.
Está piorando.
Ele está ficando sem referências, soma-se a lista dos mal tratados os nordestinos, afro-descendentes e favelados que roubaram-lhe a chance de ser despedido de um sub-emprego, ele pensa que alcançou alguma cultura mas é um vazio e continua vazando, ele está quase virando um careca nazista ou um punk nacional.
Por não comer ninguém ele arrumou uma maluca do prédio. Eh! Serve aquela merda mesmo. Pior! A maluca está com a menstruação atrasada.
Por falar nisso ele está querendo conversar com vocês.
Vê se arruma um tempinho.
Tem coisa pior?
Claro que tem.
Pode piorar.
Sempre existe o pior!

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